“Esta vendo essa sombrinha aqui no ultrasom?” perguntou a oftalmo da Maria. “Estou” respondi eu. “Não era para estar aqui. Essa superfície deveria estar lisa”. Este pequeno diálogo escondia um penhasco que se apresentaria a seguir. Como tão poucas palavras podem significar tantas mudanças na vida de uma mãe, de um pai, de toda uma família. Assim, como num passe de mágica, no dia 6 de Dezembro de 2010, tomamos uma estrada cujo destino e jornada jamais haviam sido pensados.
Tentei falar o dia inteiro com o Andre, mas, infelizmente, por um daqueles desencontros, só consegui contato no final do dia. Liguei para minha mãe que me acompanhou no diagnóstico formal, dado por uma médica muito fera do IBOL. Só caiu a ficha quando a médica delicadamente me deu um papelzinho com o nome e telefone do médico especialista, com uma pequena, mas assustadora anotação: INCA. Lembro de ficar alguns segundos, que mais pareceram horas, olhando para a Baia de Guanabara bem ali na frente. Não queria fazer nenhum movimento. Queria parar o tempo, queria voltar no tempo. Queria sumir.
A médica me deu o seguinte conselho: “Mantenha o astral alto pois a Maria percebe tudo. Se sentir a sua tristeza, vai ficar triste. Se sentir a sua insegurança, vai ficar insegura. A casa tem que estar leve, alegre, mesmo que isto seja dificílimo.” Voltei para casa tentando digerir tudo isso e buscando a melhor forma de falar com o Andre. Difícil. Meus pais vieram para cá e, junto comigo, o aguardaram chegar. Apesar de pensar em mil formas de falar com o Andre, optei pela que melhor combina comigo: honesta, direta e verdadeira. Ele custou a acreditar. Ficou parado, abobado, tentando esmiuçar o que não se sabia nada, até então. Daqui a pouco procura o André de cá, procura de lá e fui achá-lo sentado no banheiro chorando. Sentei com ele, o abracei e disse que tinha certeza de que ficaria tudo bem. Disse que juntos passaríamos por isso tudo. Chorar no banheiro se tornou a nossa única alternativa de desabafo. Quantos e quantos banhos foram assim. Não queríamos que a Maria e, principalmente, a Lulu, que já compreendia muitas coisas, percebessem o tanto de tristeza e medo que sentíamos. Enxugamos as lagrimas e fomos lanchar. Minha mãe havia posto uma linda mesa com pães, frios etc e meu pai abriu uma garrafa de vinho. Jamais esquecerei deste momento. “Astral lá em cima, lembra?” Disse a minha mãe observando meu pai servir as taças. “Lembro” disse eu, bebendo o vinho mais amargo de todos que já provei, mas o de maior significado também. Aquela noite pautou quase todas as outras. O astral se manteve nas alturas em nosso lar, assim como ficará para o resto de nossas vidas!
“A Maria está indo muito bem” disse o Dr. Luiz no exame de fundo de olho de ontem no GRAACC. “Vou até espaçar mais o exame. Ela está ótima!” Impossível descrever o sentimento que tive. Talvez fosse um misto de ganhar as olimpíadas da escola + dar de cara com o papai noel + beber uma Coca-Cola estupidamente gelada + dormir tarde, pois se está de férias + mergulhar no mar de Fernando de Noronha + fazer uma massagem de 2 horas + andar de bicicleta na lagoa + ajudar uma velhinha a atravessar a rua + aprender finalmente uma formula cabeluda de matemática + ir ao cinema + pular de asa delta (ok, neste caso, não faço a menor idéia de como seja!) +++++++ muitas outras coisas bacanas da vida. Se juntar tudo isso talvez não chegue nem perto do que senti. Fisicamente é como uma gargalhada dada pelo estômago. É uma borbulha que faz cosquinha na alma! Uma coisa de louco. Esse exame era muito importante pra gente. Muito simbólico também. Cada vez mais o pior fica pra trás e acumulamos os benefícios desta honrosa, engrandecedora experiência que passamos. Somos diferentes, é indiscutível. Aquela Viviane, se foi. É lógico que a sua essência é a mesma, mas agora com um novo formato. Ainda tenho os mesmo defeitos de
sempre, mas estou atenta e já não mais dedico meu precioso tempo a perder com eles! A vida se faz necessária hoje, agora. Não dá pra se distrair com seus defeitos. Eles são o atalho errado da rodovia, cujo retorno, só daqui a muitos quilómetros.
Dessa vez fomos de carro para Sampa e levamos a Lulu e a Inês com a gente. Paramos no Santurario de Nossa Senhora de
Aparecida e, junto com a Vó Sandra, com a Tia Lu e a Dinda Tata, rezamos emocionados em agradecimento por tantas graças ao longo deste ano. Foi muito especial.
Depois desta tarde iluminada, parte da família Calaça retornou para o Rio e nós seguimos para a casa da Dinda. Tivemos um final de semana delicioso. Levamos as meninas ao Ibirapuera no domigo, almoçamos na tratoria Lelis e, no fim do dia, encontramos com um casal de pais, cujo filho passou pelo mesmo que a Maria. Estamos nos organizando para ajudar o Dr. Luiz nesta missão de tratar tantas crianças com o Retinoblastoma. Crianças que, na maioria das vezes, chegam lá com a doença em estágios avançado. As pessoas precisam de ajuda! Poderíamos usar a experiencia que ganhamos em prol de outras famílias que precisam e merecem suporte. De maneira ainda muito embrionaria já está se formando o nosso projeto que tem a ambição de contribuir de maneira significativa na luta contra o câncer infantil. Mesmo ainda não tendo nada muito concreto já estamos aceitando voluntários!
O mundo gira. E graças a Deus ele girou pra gente. 365 dias se passaram e parte do nosso diário de bordo é concluída. Pode se dizer que o primeiro capítulo da história da Maria virou a página. Capítulo denso, intenso, mas também divertido, aventureiro, gregário. Fechamos esta etapa com chave de ouro. Agora nova narrativa se abre. Novo compasso, nova dança, nova música, novidades. A nossa batatinha está linda, genial, de tirar o fôlego. Ano que vem já vai para a escola, dará inicio a sua rotina, vida social e dinâmica. Ela, que sempre foi o bom-humor em forma de gente, feliz pra caramba, merece ainda mais curtir essa vida boa que Deus nos deu.
A vocês todos, que nunca nos deixaram sós, que nos emprestaram a sua fé, que torceram para que tudo terminasse bem, que estiveram generosamente lado a lado com cada passo que demos, o nosso MUITO OBRIGADO e a nossa CERTEZA, de que sem essa torcida, não teriamos ido tão longe. Vocês não imaginam a gratidão que temos e o enorme orgulho por termos o privilegio de possuirmos tantos amigos ao nosso redor. Obrigada gente! Hoje vale um brinde pela nossa conquista.
A Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora de Aparecida, Nossa Senhora da Paz e Santa Luzia pelo aconchego materno que tanto nos sustentou. A Jesus e seu bom Pai, Nosso Deus, pelo caminho certeiro que sempre esteve aos nossos pés.
Um beijo em todos, da mãe mais realizada do dia, do ano, desta encarnação!
Vivi













