É um fato: a vida está cada vez mais complexa, das coisas mais simples, como fazer compras em um supermercado, até as mais densas, como educar uma criança. São tantas opções, tanto acesso, tantos detalhes e opiniões. Não existe mais silencio ou ausência. Existe uma atividade onipresente que nos empurra para frente, nos cutuca. Você pode até tentar ficar parado desde que seja na velocidade do planeta, e o planeta rodopia, meus amigos! A gente contribuiu para esse contexto. Somos cada vez mais inquietos, insatisfeitos, obcecados. Criamos regras e etiquetas, pompa, hierarquia, classificações. Precisamos emoldurar tudo e todos para que a vida faça sentido dentro do que nos agrada. Grande ironia. O feitiço vem virando contra o feiticeiro e estamos pagando já no curto-prazo o preço por esse frenesi.
Essa vida, a vida complexa, é ficção cientifica. Me explico melhor: acho mesmo que agregamos complexidade pois não temos um real problema. Temos tempo de sobra para elucubrar, digerir e repassar um montão de assuntos, rotinas, regras etc, afinal de contas o tempo tem que ser preenchido, para nos sentirmos ocupados e, consequentemente, importantes.
Quando um sufoco se apresenta, quando a vida real te convoca, a primeira coisa que fica evidente é a sua simplicidade. Problema grande é problema simples. Eu não disse fácil, eu disse simples. Problema complexo é uma invenção humana. Diante de um chamado, como o da Maria, você tem que agir, geralmente não tem mais do que alguns pouquíssimos médicos especializados, o protocolo de tratamento é universal e raros são os centros de excelência. Você faz menos escolhas do que quando está diante da gôndola de sabão em pó no supermercado! Escolher, minha gente, é um grande luxo da vida, uma grande permissão para brincar, se divertir, preencher o tempo. Quando o problema é real, você tem pouco desse luxo. Você geralmente tem pouco tempo, poucas alternativas e muito risco, o que torna mais necessária a eficácia do que a eficiência. A singularidade das escolhas reverbera e faz com que tudo ao redor se torne mais simples também, ou pelo menos, você fica mais sensível a isso. Daí o meu aprendizado. Vou dar um exemplo.
De tudo que vivi nessa jornada, um dia, em especial, me marcou muito pela sua simplicidade e grande importância. Era domingo, dia 12/12/2010, véspera do dia de Santa Luzia. Fazia um dia lindo, um calorão, e fomos, com nossa família, à Igreja de Santa Luzia, no centro. Foi antes da sua reforma e a fachada estava bem chumbada. A Igreja, embora seja tombada e histórica, demonstrava uma fragilidade evidente. Eu ainda estava zonza, tentando digerir o diagnóstico da Maria, então tenho recordações meio esfumadas, turvas, tipo aquelas cenas de filmes onde não se sabe bem se é sonho ou realidade.
Lembro-me de entrar na igreja e constatar que por dentro era tudo ainda mais singelo. Quase não tinham bancos, os poucos que tinham estavam no altar, e estavam vazios. Era véspera da festa e, portanto, não era um dia de muita visita. Próximo a porta, pacientemente e de pé, tinha um homem, nem jovem nem velho, usava óculos escuros, tinha algo em suas vistas, mas não aparentava ser cego. Sem dizer uma única palavra, nos entregou santinhos de Santa Luzia. Claramente estava ali em agradecimento a uma graça alcançada. Era de emocionar a sua humildade diante do altar. Era de encantar a sua simplicidade. A sutileza do seu gesto em contraponto a grandiosidade de sua FÉ.

Igreja de Santa Luzia hoje - Complexo...
Eu lembro de me dar conta de que estava usando bermuda e uma sandália rasteirinha e me questionar se estava a altura daquela cerimônia. Peguei a primeira roupa que veio na frente. A mais simples, a mais confortável. Olhava pra mim e ao mesmo tempo para as paredes, objetos, iluminação. Percebi que era de fácil acesso a sacristia e não me lembro ao certo se fui eu mesma ou a minha mãe quem pediu para falar com o padre. Queríamos uma benção para a Maria, precisávamos de uma palavra de esperança. Foi simples conseguir isso. Em um instantinho estávamos lá dentro. Móveis antigos, madeira escura, mas poucos objetos. Lá no fundo o padre, pequenino, barba por fazer, nada em linha com o estereotipo, mas simplesmente encantador. Logo nos acolheu. Em lágrimas contei o que estava acontecendo e pedi sua ajuda. Ele disse as coisas certas, na hora certa e nos agraciou com uma benção regada à água benta. Lavamos a alma e renovamos a nossa confiança de que tudo terminaria bem.
O padre se dirige para o altar, nos vamos atrás dele. Cada um de nós pega um lugar para assistir a missa. Diferentemente de todas as missas que já assisti, nessa o padre não tinha ajudantes, não tinha carolas a lhe bajular, não tinha coro, não tinha sequer alguém para recolher as oferendas. Ele fazia tudo sozinho. Ele conduzia a missa e ele mesmo cantava! E fazia com um gosto, com uma felicidade, com uma generosidade, embora fosse um tanto quanto desafinado
. Chegava a ser cômico, mesmo nesse nosso contexto meio trágico, pois era tudo tão simples, tão improvisado, que nos sentíamos meio em casa. Essa simplicidade na forma de celebrar a missa e na indumentária dava lugar, dava devido espaço, ao que mais interessava: a renovação da FÉ, sem penduricalhos, sem purpurina, sem distrações. A mais pura e mais simples FÉ, simples, simples e simples assim. A FÉ é eficaz. Ela simplifica a jornada, torna mais leve, mais certeira.
A vida real é simples. Sem rodeios, sem prefacio. Enquanto o dia a dia for complexo e enrolado, é porque você optou por isso. É uma escolha sua, um valor seu, um luxo que você sustenta. Seja lá pelo motivo que for. Simplifique para não ser simplificado. Que seja você o agente de mudança e não o destino, o acaso. A dor te obriga a simplificar, mas você não precisa chegar nela para optar por esse caminho!
Que a SIMPLICIDADE de Jesus esteja entre nós! Gratos por tudo!
Um ótimo fim de carnaval para todos. Depois postamos notícias e fotos das nossas folionas!